
Lembro do porão. Não o imaginário, mas o temido porão do meu avô. Era lá que ficava a bicicleta que ele usava para ir trabalhar em alguma construção. Parece que a bicicleta fazia dobradinha com o chapéu. A idade enferruja a lembrança. Da memória só resta a imagem dele saindo com a bicicleta, o chão de terra e do escuro que metia medo nos netos afoitos que descobriam sempre o esconderijo da chave. Afinal, o que havia no porão do meu avô?
Vou ter que recorrer à memória de minha mãe. Ai que medo de quebrar o encanto de criança!
Agora, resta a construção de madeira...Da janela, minha avó aparecia de penico em punho sempre a despejar xixi nos casais que se arriscavam a namorar embaixo de sua janela. A brejeirice não era só com desconhecidos. Quem da família que se arriscasse a provocá-la por mera brincadeira, deveria ser bom atleta. Ela ostentava chinelo a correr atrás do zombeteiro atrevido. Muitas vezes vi meu tio- casado e pai de duas filhas- a correr das chineladas da minha avó.

E ai de quem não não respondesse com um sonoro "Senhora", quando era chamado para almoçar. Um simples "Quêeeeeee??????" após ter o nome chamado, vinha prontamente numa pergunta ríspida: "Como é que é?". Cientes do perigo, respondíamos:
"Senhoooooooooooooooooooooooora."
Estar uns "quilinhos" acima do peso era motivo de um sonoro" tá linda, que beleza. Não gosto quando tá esmagrecida fica parecendo gente doente."
Às vezes, vem aquela última conversa no telefone perguntando quando iria visitá-la. "Quanto tempo, fia. Tá de galope pra lá e pra cá? Que sodade.". É. A vida continua corrida. E quanta saudades.